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HitdaBreakz

2/02/2006

Celluloid: Nova Iorque, outra vez


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A Celluloid, importante editora que operou em Nova Iorque na década de 80 e que, só para início de conversa, tem esta imponente discografia, acaba de ser revisitada numa interessante compilação que chega em boa hora ao nosso mercado. Este é o texto que, a propósito, assinei recentemente para o Blitz. E, aqui ao lado, uma foto do célebre Fab Five Freddy ao lado do mítico Soup Train, mencionado no texto!

VÁRIOS ARTISTAS
“The Celluloid Years – 12”es and more...”
Groove Attack/NTM


A Celluloid, seminal editora franco americana que operou a partir de Nova Iorque, está de novo em evidência graças a uma compilação que recupera uma série de excelentes momentos clássicos.



O continuado fascínio exercido pela Nova Iorque de há 25 anos justifica-se, muito simplesmente, pelo facto de se terem aí conjurado ligações que não se voltaram a repetir e que estão efectivamente na base de uma sonoridade que, da DFA à alemã Gomma, marca o underground que hoje se dedica a cruzar uma multitude de pistas que se estendem do poder eléctrico do rock ao pulsar electrónico da música de dança. E bem no centro dessa explosão de criatividade com um quarto de século encontrou-se em tempos uma editora franco-americana de nome Celluloid que agora vê reunidos alguns dos seus mais significativos doze polegadas numa compilação que assume o generoso formato de duplo CD.
A quebra de barreiras entre diversas culturas musicais que hoje é bandeira de bandas como LCD Soundsystem ou Who Made Who tem de facto origem no clima altamente volátil em termos criativos que se instalou na Nova Iorque da transição da década de 70 para a de 80. Nessa época, Manhattan assumiu-se como uma espécie de gigantesco íman que atraía inexoravelmente desenvolvimentos ensaiados em bairros periféricos, como o Bronx ou Brooklyn. Uma das figuras-chave desta era foi, sem dúvida, um jovem artista de graffiti de nome Fab Five Freddy que desde cedo não hesitou em cruzar mundos diferentes, unindo-os com a sua energia. Freddy foi um dos pioneiros da arte ilegal de adornar carruagens de metro com obras conseguidas à custa de imaginação e latas de spray e uma das suas mais memoráveis peças foi exactamente o “Soup Train”, uma homenagem directa do mundo obscuro do graffiti à Pop Art de Andy Warhol. Percebe-se, por isso mesmo, que Fab Five Freddy não tenha demorado muito a estabelecer ligações com gente como Chris Stein, dos Blondie, e que tenha sido um dos responsáveis directos pelo envolvimento da “art crowd” no nascente movimento Hip Hop. Daí à emergência de uma complexa cena que possibilitou a gente como Jean-Michel Basquiat apoiar renegados visionários como Rammelzee foi um simples passo e, de repente, Nova Iorque assumia de facto a sua condição de caldeirão cultural possibilitando a músicos oriundos dos círculos das vanguardas punk e jazz colaborarem com militantes das zonas até então estanques do Hip Hop e Disco. A Celluloid, sem dúvida, foi um dos catalizadores dessa breve explosão.
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Curiosamente, a Celluloid era uma etiqueta com capitais franceses concebida para observar de perto a revolução que varria as ruas de Nova Iorque (os franceses gostam de observar revoluções de perto, veja-se a passagem de Sartre por Portugal depois do 25 de Abril…). E para A&R, esta editora elegeu um então recém chegado a Nova Iorque de nome Bill Laswell que desde 1979 tinha a sua célula de terrorismo funk operacional – os Material, claro.
Esta compilação abre com o único dos primeiros 5 estudos de Hip Hop encomendados pela Celluloid a Laswell que não contou com produção dos Material. Trata-se do famoso “Escapades of Futura 2000”, um disco com um péssimo rap de um fabuloso writer de graffiti com música da autoria dos Clash! Futura (que mais tarde alcançou fama a desenhar as capas para a Mo’Wax de James Lavelle, o homem que tinha um projecto de nome Unkle com um tal de Tim Goldsworthy hoje responsável pelos destinos da… DFA! Conseguem ver o padrão?...) tinha colaborado na famosa digressão americana dos Clash que incendiou Times Square em Nova Iorque e o disco que realizaram juntos é uma deliciosa peça de retro-electro que, apesar do flow amador do artista plástico, retém muito do espírito da época. Outros artistas de graffiti, como Phase 2 e Fab Five Freddy, também assinaram trabalhos para a Celluloid (alguns deles presentes nesta compilação).
Laswell foi, definitivamente, muito inteligente ao entender que a Nova Iorque desta época era uma incrível mescla de culturas e a fase inicial da Celluloid reflectiu exactamente isso: John Lydon colaborou com Afrika Bambaataa, os Last Poets entregaram a sua apocalíptica visão poética a temas perfurados pela tecnologia electro e Manu Dibango estabeleceu pontes entre a África primal e a Manhattan electrónica. E depois, claro, havia D.ST, o grande DJ com quem Laswell ensaiou na Celluloid as experiências que mais tarde conduziram a “Rockit” de Herbie Hancock (D.ST é o responsável pelo famoso “wick wick wick” daquele que é provavelmente o maior tema electro de todos os tempos e o único assinado por uma ex-glória da Blue Note…).
Esta “The Celluloid Years” é assim uma excelente compilação e uma valiosa peça para ajudar a completar o puzzle que ilustra a vibração única da Nova Iorque da primeira metade dos anos 80. Definitivamente, uma colecção de temas digna de figurar ao lado de outras excelentes compilações como “Anti N.Y.” da Gomma ou “New York Noise” da Soul Jazz. Espera-se é que seja apenas a primeira de uma série porque um catálogo como o da Celluloid, por onde passaram nomes como Alan Vega, Konk, Tuxedomoon, Teenage Jesus and the Jerks, Lydia Lunch, Cabaret Voltaire, Was (Not Was), Los Microwaves, Residents, Metal Urbain e, entre vários outros, Fela Kuti tem, obviamente, muito mais para oferecer.