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HitdaBreakz

12/30/2004

O UNIVERSO DE MADLIB




No momento em que Madlib se prepara para atacar 2005 em força com edições já planeadas de Quasimoto (há um mp3 para descarregar aqui) e do novo projecto de jazz Sound Directions (além das previsíveis edições da sua homenagem aos Azymuth que já circula na Net e de um segundo volume de remisturas de material Blue Note), achei por bem recordar um texto publicado na Op # 12 (e, a propósito, o número 15 já roda por aí!) que pode servir como introdução à obra deste portentoso criador, igualmente à vontade em territórios "convencionais" de Hip Hop (ouça-se, a título de exemplo, o seu beat para Shopping Bags, no mais recente álbum dos De La Soul), no jazz mais abstracto (o recente Monk Hughes and The Outer Realm, já por aqui mencionado, é um exemplo claro disso) ou até a desbravar novos caminhos, algures entre a soul futurista e o breakbeat disfuncional (ouça-se o trabalho de DJ Rels, que, como aliás já tinha previsto, teria alargado a minha lista de melhores de 2004 se o tivesse ouvido vezes suficientes quando a elaborei...). Digno de nota é igualmente a reedição recente de Angles Without Edges, o seu trabalho de estreia como Yesterdays New Quintet, que agora chega ao mercado como um duplo CD que inclui dois EP's do Quintet anteriormente só disponíveis em vinil. Este homem não pára e, para mim pelo menos, tem obrigado a modernidade musical a dar atenção ao seu nome.



MADLIB

reinventar o passado

Já olharam bem para dentro das espiras de uma velha prensagem de vinil dos 3 Sounds ou de Bobby Hutcherson? Já espreitaram para lá do brilho negro do vinil e tentaram adivinhar a disposição dos músicos no histórico estúdio de Rudy Van Gelder? Do que falariam antes do engenheiro dar início à sessão? Já procuraram imaginar as escalas que Gene Harris tocava no seu Hammond B3 para aquecer os dedos? Ou de que marca era a garrafa estrategicamente colocada ao lado do vibrafone de Bobby Hutcherson? Já algum dia sentiram os vossos olhos a prenderem-se no azul-Blue Note das etiquetas destes discos e se perguntaram como estariam estes músicos vestidos no dia das gravações? Qual a marca do carro que os levou até New Jersey? O que almoçaram nesse dia?

A música que Madlib compõe e grava a um ritmo ainda mais alucinante do que o seu carregado calendário de edições deixa adivinhar contém as respostas a todas estas perguntas. E levanta ainda mais questões – delirantes, complexas, absurdas… – que são respondidas com uma lógica turva de fumo verde, dactilografadas directamente na sua SP 1200 e explicadas de forma enigmática pelas brancas & negras do seu Fender Rhodes.

Preencher os espaços em branco abertos pela imaginação quando o som quente de um disco de jazz se liberta do Hi-Fi e nos invade a vida deve ser um exercício a que Madlib* (nome verdadeiro: Otis Jackson Jr., também conhecido como baterista do virtual Yesterdays New Quintet) se habituou desde criança. Basta imaginar um típico jantar do Dia de Acção de Graças em sua casa, há 25 anos. Sinesca Jackson, a sua mãe, prosseguiu uma linhagem familiar de cantoras de folk e blues e muito provavelmente sentava-se ao piano quando chegava a altura de servir as bebidas. Otis Jackson Sr., o seu pai, tinha um peru para trinchar porque trabalhava bastante, como músico de sessão, para gente como Tina Turner, Bobby “Blue” Bland e Johnnie Taylor. Depois, não seria de estranhar que Otis Sr. tivesse convidado um dos seus amigos produtores para esse jantar. David Axelrod, por exemplo. O mítico produtor de gente como Cannonball Adderley ou os Electric Prunes de certeza que trazia histórias para a mesa da sala que deixavam o pequeno Otis maravilhado. E não podemos esquecer o tio, Jon Faddis, na cidade por uns dias, enquanto a vida na estrada ao lado de consagrados como Dizzy Gillespie, Bob James ou Roy Ayers não o levava de novo para longe de Oxnard (nos subúrbios de Los Angeles). Tentem imaginar o burburinho de um jantar assim. Tentem imaginar o impacto das notas que se soltaram do piano, das vozes que se elevaram acima dos risos, das histórias com nomes grandes que se contaram naquele jantar e que marcaram para sempre o pequeno Otis. E agora perguntem-se como poderia Madlib fazer outra coisa que não tentar reproduzir o glorioso ruído dessas noites, com uma colecção de discos assinados pelos nomes que se habituou a ouvir mencionados lá em casa com natural familiaridade e um sampler. O hip hop, para Madlib, é apenas um meio para contar a sua própria história e organizar as suas memórias. De resto, é assim que acontece com os melhores.



Madlib tem uma série de novos discos na rua: Shades of blue, o seu tributo à Blue Note; A lil’ light, o álbum com o “crooner” Dudley Perkins (aka Declaime, MC com dois grandes registos no currículo – o EP Ill Mind Muzik de 99 e o álbum Andsoitsaid de 2001 – ambos com um generoso número de faixas produzidas por… Madlib - e, já deste ano, o novíssimo Conversations With Dudley, igualmente com contribuições de Madlib, editado na Up Above); Stevie Vol. 1 (álbum de covers de material original de Stevie Wonder, assinado pelos Yesterdays New Quintet); e Secondary Protocol, o álbum de Wildchild (MC dos Lootpack, grupo com que Madlib se estreou nas edições de grande formato, em 1999, com o LP Soundpieces: The Antidote) que conta com dez beats assinados por Madlib (os seis restantes têm o carimbo do seu irmão que responde pelo nome de Oh No e que já em 2004 editou o belíssimo The Disrupt). A esta lista, poderia ainda acrescentar-se o recente maxi The Official que prepara caminho para a estreia em álbum do projecto Jaylib (entretanto já editado, claro!), resultado da conjugação de esforços de Madlib e Jay Dee; o single de 7” Nuclear War que mostra Madlib a levar os seus YNQ para territórios do free jazz com uma sentida vénia a Sun Ra; ou, embora com circulação ainda “limitada” pelo domínio virtual da Internet, o álbum do projecto Madvillain que vê Madlib a trocar delírios sampladélicos com MF Doom (e que, obviamente, também já foi editado, marcando presença em muitas das listas de melhores de 2004).



Seja como for, fica bem vincada a ideia de que a aplicação do termo “workaholic” a Madlib corre o risco de se revelar um sério “understatement”. Madlib confessa regularmente a quem lhe pergunta que produz, no mínimo, material suficiente para um novo álbum a cada três ou quatro dias. E se tal possa eventualmente parecer um entusiasmado exagero do produtor, rapidamente essa ideia se desvanece: Peanut Butter Wolf, o patrão da Stones Throw, explica em algumas entrevistas que Angles Without Edges, o genial álbum de estreia dos YNQ, é o resultado da selecção de material que ocupava originalmente 20 CDRs. Por outro lado, em www.stonesthrow.com descobre-se que Stevie Vol. 1 é apenas a ponta de um iceberg de produção compulsiva que já gerou álbuns ainda não editados de tributo a gente como George Duke, Roy Ayers ou Azymuth.

Naturalmente, presumir que todo o “output” criativo de Madlib mantém um constante nível qualitativo é, muito mais do que simples ingenuidade, sinal de que não se percebe a verdadeira razão de tão intensa produção de música. Nas entrelinhas do por vezes hermético discurso de Madlib (ver, por exemplo, a entrevista de Egon, compilador de Funky 16 Corners e braço direito de PBWolf, disponível aqui) há claros sinais de que o impressionante ritmo de produção a que se submete é consequência de um espírito inquieto, assombrado pelas possibilidades infinitas da própria música que deseja abraçar de uma só vez. Sob esse prisma, cada um dos discos que edita – e, sobretudo, cada um dos que nunca chegaremos a ouvir – é apenas uma peça solta de um complexo puzzle de sonhos e desejos alimentados por uma sede transcendental de criação. Uma sede que impele Madlib a procurar recriar por todos os meios cada espaço em branco aberto directamente na sua imaginação por todos os discos que o marcaram: os álbuns de jazz da Blue Note materna, os álbuns da fusão eléctrica com a estratosfera de mestres como George Duke ou Herbie Hancock, os álbuns de “swing” cósmico de Roy Ayers e Lonnie Liston Smith, os álbuns de cubismo tropical assinados pelos Azymuth, ou os álbuns de groove psicadélico de Stevie Wonder e Weldon Irvine. E quando o sampler já não chega, Madlib ensina-se sozinho a retirar sentido de um Fender Rhodes, a curvar as cordas de um contrabaixo a uma qualquer ideia pulsante ou a sincopar padrões imaginados numa bateria real. A música de Madlib e a sua dispersão por múltiplas latitudes editoriais e artísticas é parte de um processo maior de crescimento, de realização de uma visão. Como tal, são igualmente significantes os momentos de plena realização artística e os de indecisão e recuo. Madlib aceita cada nota que produz, sonante ou dissonante, correcta ou “livre”, como parte de um todo ainda não revelado.

Assim, Shades of blue, o álbum com que a Blue Note abriu os seus arquivos ao sampler de Madlib, é apenas um gesto de reconhecimento de afinidades, onde as remisturas de bases pré-existentes diluem a sua natureza com esforços de recriação genuínos. Para Madlib, Shades of blue equivale ao folhear de um álbum de recordações. As remisturas são reverentes exercícios de actualização subtil, e as versões, ou “re-imaginações”, são resultado da procura de um lugar no fluxo da história que Madlib ouve contada pelos discos que colecciona. E a prova de que Madlib faz música para responder a questões colocadas pela sua hiper-activa imaginação encontra-se no delicioso pormenor de o acesso facilitado às multi-pistas originais de peças de ícones como Donald ByrdStepping Into Tomorrow, mais concretamente – lhe ter permitido recuperar porções da sessão original (no caso, as vozes femininas) que haviam sido eliminadas da mistura final.



Já com um disco como A lil’ light de Dudley Perkins a tentativa de re-equacionar as coordenadas de espaço e tempo, transformando um rapper num “crooner” toldado pelo fumo e um produtor de Hip Hop num director musical do combo residente no lounge de Bellevue, é ainda mais descarada. Dudley Perkins começou como uma brincadeira levada até às últimas consequências no single de 7” Flowers, uma ode ao tipo de ervas medicinais que se fumam em vez de se mergulharem em água quente. A experiência teve resultados interessantes e por isso mesmo Madlib e Declaime voltaram ao ataque. Em A lil’ light lida-se com os clichés do género de jazz-soul que se escutava nas coffee-houses dos anos 70. Dudley não canta, mas o seu demente falsetto transporta sugestões de letras, improvisadas por entre mais uma inalação. Curiosamente, Madlib acompanha o delírio de Dudley Perkins com beats que ostentam com orgulho falsos arranques, erros de programação, soluços no fluxo e dissonâncias variadas. Digamos que nem com faróis de nevoeiro deveria ter sido possível ver o que se passou no Bomb Shelter (estúdio caseiro de Madlib) durante estas sessões.



É ainda sob a perspectiva da homenagem às origens que se entende Stevie Vol. 1”, um CD cujo carimbo de “promo item” o fez ter um preço dilatado em sites como o Ebay. Executado pelo Yesterdays New Quintet – que entretanto começou já a gerar discos a solo de cada um dos seus “elementos”: Madlib já editou maxis de Joe McDuphrey (o “pianista” do quinteto) e de Ahmad Miller (clavinet e guitarra) (e entretanto editou a homenagem a Weldon Irvine com o alter-ego Monk Hughes and the Outer Realm) – Stevie Vol. 1 é um pedaço de luz intensa apontada à carreira do grande Stevie Wonder. Escutando a versão de Superstition, por exemplo, sente-se ainda o processo de aprendizagem intuitiva de Madlib no Rhodes. Tendo em conta que o hip hop não é terreno fértil para versões (afinal de contas samplar já atira a composição para os domínios da citação), o gesto de Madlib reveste-se de uma honestidade profunda e de uma reverência sentida. E inverte-se o sentido natural do hip hop – que sampla para construir um objecto novo – ao encenar um regresso às origens onde o que é produto da citação directa pela via do sampler se confunde com o que resulta de uma ingénua abordagem das ferramentas usadas originalmente na criação das peças que agora são alvo de devoção.

Madlib parece realmente estar em todo o lado ao mesmo tempo. O seu trabalho no álbum do MC Wildchild, seu companheiro de armas nos Lootpack, mantém um elevado nível de qualidade, com beats que assumem uma identidade distinta de tudo o que conhecemos actualmente no Hip Hop. Madlib não é nem Jay Dee, nem Kanye West, nem os Neptunes ou Timbaland. Aqui remete-se à sua identidade de Loop Digga, assumida primeiramente no seu álbum a solo como Quasimoto (em que Madlib se transforma num rapper com flow alimentado a hélio…), construindo beats com pedaços de história, fazendo colidir baixos profundos com baterias sujas com o pó do tempo.



Faz tudo parte de um processo. Madlib gosta de se referir a si mesmo como “The Beat Conductor”, como se, muito mais do que como um produtor, se visse como um maestro cuja missão é encontrar um ponto de equilíbrio ideal onde seja possível orquestrar ideias, métodos, estímulos e capacidades para a organização de uma visão onde não há reais distinções entre passado, presente e futuro. Madlib sente que os discos que ama – independentemente da data ou do local onde possam ter sido gravados (desde a New Jersey de metade dos anos 60 até ao West Wend Londrino do novo século) – são entidades vivas e que, enquanto tal, são continuamente passíveis de serem reequacionados, reescutados, reconstruídos. Há que preencher os espaços em branco, completar a história, continuá-la e até, se necessário, alterá-la. Não passará muito tempo até que Madlib veja a sua oportunidade de regressar ao passado pela via do presente colaborando com os ídolos que permanentemente informam a sua produção artística. Herbie Hancock? George Duke? Azymuth? Madlib espera um telefonema vosso.

* “madlib” é o nome de um popular jogo infantil cujo princípio básico é a aplicação, mais ou menos aleatória, de palavras a espaços deixados em branco em frases pré-existentes.

DISCOGRAFIA DE MADLIB EM 2004

Singles

Dudley Perkins - Washedbrainsyndrome 12" single 2004
Madvillain - Curls & All Caps 12" single 2004
Madvillain - One Beer 7" single 2004
DJ Rels - Song For My Lady (co-produced, uncredited) from Broken Soul 12" single 2004
Malik Flavors - Ugly Beauty 12" EP 2004
Jaylib - McNasty Filth/Pillz 12"/CD single 2004
Joe McDuphrey Experience - Entrando pela Janela from "Keepintime 12-inch #2" 12" EP 2004 (Mochilla)
Quasimoto - Broad Factor 12" single 2004
Quasimoto - Bus Ride 12" single 2005

LPs

Madvillain - Madvillainy CD/LP 2004
Madvillain - Madvillainy Instrumentals LP 2004
Yesterdays New Quintet - Stevie CD/LP 2004
Monk Hughes & The Outer Realm - Tribute To Brother Weldon CD/LP 2004
DJ Rels - Theme For A Broken Soul (co-produced, uncredited) CD/LP 2004
Oh No - The Disrupt (5 Songs) CD/LP 2004
v/a - 5 tracks from Stones Throw 100 CD/12" EP 2004
Oh No - The Disrupt Instrumentals (5 Songs) LP 2005

Produção

Vast Aire - Look Mom No Hands, Could Be You, Life's Ill from "Look Mom No Hands" CD/LP 2004 (Chocolate Industries)
Aceyalone - KO Player from v/a "True Notes Vol. 1" CD 2004 (Okayplayer)
Declaime - Signs from "Preemtive Hype Vol. 2" 12" EP 2004 (Hiphopsite - Promo)
Prince Po - Too Much, The Slickness, Bump Bump from "The Slickness" CD/LP 2004 (Lex)
Diverse - Beyond, Beyond from "Just Biz" 12" single 2004 (Chocolate Industries)
Wildchild - Vinyl Talk, The Jackal, Fallen Soldiers, All Night from "The Jackal" 12" EP (Industry)
De La Soul - Shopping Bags 12" single 2004 (Sanctuary)
De La Soul - Shopping Bags from "Grind Date" CD/LP 2004 (Sanctuary)
Living Legends - Blast Your Radio 12" single 2004 (Up Above)

Remixes

Prozack Turner - Bang It 12" single 2003 (Dreamworks-Promo) and "Death, Taxes & Prozack" CD 2004 (Outofwork)
Bobby Humphrey/Madlib - Young Warrior from "Blue Note Revisited" CD/LP 2004 (Blue Note)
Jay Z - Threat from "S. Carter: The Re-Mix" CD 2004 (Rocafella)
Jay Z - Threat from "Jay Z: Remix" 12" EP 2004 (bootleg)
Donald Byrd/Madlib - Steppin Again 7" single 2004 (Blue Note)

Sets

Madlib - Mind Fusion Vol. 1 CD 2004 (Mad)
Madlib - Mind Fusion Vol. 2 CD 2004 (Mad)
Madlib On Worldwide CD 2004 (Promo - Sandboxautomatic.com, Hiphopsite.com, Turntablelab.com)
DJ Rels Mix CD 2004 (Promo - Sandboxautomatic.com, Hiphopsite.com, Turntablelab.com)