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HitdaBreakz

10/25/2004

TALES FROM THE (DIGGIN') CRYPT # 1




No universo do diggin' as histórias de terror abundam: seja o holy grail que se descobre por um euro na Feira da Ladra e que depois revela uma rodela de vinil partida ao meio ou o dilema clássico da banca com duas caixas de discos - o medo de que a caixa por que optamos primeiro só tenha porcaria enquanto a outra, explorada por um digger concorrente, possa esconder dezenas de preciosidades de funk provoca sempre calafrios até no digger mais experimentado!
São histórias dessas que vos vamos propor nesta nova série de textos com a chancela Hit da Breakz (HdB, para os amigos!). E para começar nada melhor do que recuar até ao distante ano de 1999 (outro século, outra realidade), quando as brumas do diggin' ainda se abatiam sobre este rectângulo à beira mar especado. Nessa idade média do diggin' só alguns cavaleiros do vinil redondo procuravam os holy grails em Portugal. Apesar do obscurantismo, era uma época com as suas virtudes até porque todos os que não habitavam no reino mais progressivo de Camelot se limitavam a procurar vinis dos Beatles, dos Stónes (assim mesmo, com acento no ó) e dos Queen. O que deixava, a nós os cavaleiros do Graal, todo um vasto campo de jazz, soul, funk, reggae e outra música de facto interessante à nossa disposição. Éramos novos, tínhamos acabado de ser armados cavaleiros e o mundo estava a nossos pés (quer dizer, mais ou menos...).
Nessa época (a ficção ficou toda encafuada no parágrafo anterior, a partir daqui os factos são reais ainda que algumas metáforas possam ser douradas, assim tipo efeitos especiais no cinema...) conturbada em termos pessoais, andava a fazer um programa de rádio na Marginal (Hip Hop Don't Stop) e costumava apanhar uma boleia até casa da pessoa que comigo fazia o programa. Acontece que o programa era ao domingo, o que significava que o comércio normalmente estava fechado. Descobri um dia, numa conversa com um companheiro lá da estação, que no caminho que costumava fazer para casa havia um daqueles armazéns de venda de coisas em segunda mão que tinha "muitos discos", mas, com o programa a terminar à meia-noite de domingo pouco mais pude fazer do que localizar com exactidão esse armazém. (Claro que eu sabia que, para os filhos da geração digital, "muitos discos" significava, na maior parte das vezes, uma caixa de papelão com 50 LP's...) Seguiram-se meses de planeamento e conjugação de horários até chegar ao dia em que me pude permitir escapar durante uma hora de almoço e dar um salto até ao tal armazém, requisitando para isso os serviços de um táxi.
Como nessa época nada me corria bem, cheguei ao local e reparei que as pessoas que lá trabalhavam estavam a sair para ir almoçar. Com muito esforço lá consegui convencer um dos homens de que era absolutamente imperioso que eu pudesse ver o que eles tinham para venda. Lembro-me que prometi comprar alguma coisa, fosse o que fosse, mesmo que nada houvesse que me interessasse. O homem lá condescendeu e disse aos colegas para irem andando, enquanto me convidava a entrar.
O armazém era igual a todos os armazéns deste género, com cadeiras velhas amontoadas por todo o lado, móveis fora do prazo de validade, louças rachadas pelas décadas de uso, uma ou outra máquina de escrever e inúmeras televisões do tempo em que o Eládio Clímaco ainda era um rapaz casadoiro. Ao fundo do armazém, no entanto, lá estavam eles: centenas e centenas de discos, arrumados de qualquer maneira em prateleiras de um par de estantes antigas, alguns no chão, outros em cima de cadeiras.
Com o homem a dizer-me "vá lá, não se demore" de cinco em cinco segundos, eu sabia que não tinha tempo a peder. Meia hora depois ainda só tinha posto de lado um par de discos dos Talking Heads, que, embora bons, eram apenas peças para troca pois já existiam na minha colecção. Mais meia hora e nada. O homem a dizer que tinha que se ir embora e eu, já com tudo praticamente visto resolvi perguntar-lhe se não tinham mais discos. "Por acaso temos ali uma arca cheia deles, é que estamos a começar a arrumá-los para os enviar todos para a nossa delegação do Porto." Com a paciência do homem já a aproximar-se perigosamente do ponto de não retorno, lá lhe pedi com bons modos para me deixar ver a arca. Era uma daquelas arcas de madeira que as nossas avós usavam para guardar cobertores, só que cheia de discos. Abri a caixa e comecei a tirar discos imediatamente: Jungle Boogie dos Kool & The Gang, Do It 'Til You're Satisfied dos B T Express, Sings the Blues da Nina Simone, alguns maxis de disco, um par de bons álbuns de jazz, meia dúzia de bons discos de easy lstening (lembro-me do Something da Shirley Bassey orquestrado pelo Johnny Harris, por exemplo) e, quase no final da caixa, um Fela Kuti! Fela Ransome Kuti & The Africa 70, Afrodisiac de 1972, o álbum do fabuloso Don't Gag Me.
De regresso ao escritório depois de ter pago uma inominável ninharia por uns 20 discos lembro-me de sentir uns calafrios ao pensar no que teria acontecido se eu não tivesse convencido o homem a deixar-me entrar. Tinha todas as razões para estar aterrorizado até porque voltei a esse armazém um par de vezes e, de facto, nunca mais lá encontrei discos. Provavelmente foram mesmo todos despachados para o Porto.

Este álbum de Kuti é um poderoso testemunho de uma época em que a sua música estava a mudar e o seu espírito a libertar-se. Com Tony Allen a comandar com mão segura e rigor milimétrico uma incandescente orquestra, este álbum é um clássico numa discografia maior.
Felizmente, desta vez pelo menos, tudo acabou em bem e os sustos foram apenas retroactivos, resultando de um tenebroso "e se...?" que não chegou a passar-se.

Para terem uma ideia do que eu podia ter perdido, fica aqui uma amostra de Afrodisiac:

Don't Gag Me - Fela Ransome Kuti & The Africa 70